A criança tem a capacidade de tirar o pó da Igreja e promover mudanças


Com 21 anos, a jovem Aline Beatriz Perez Zúniga vive no Brasil há um ano e quatro meses. O desejo de estar nesse solo foi irresistível quando juntou o amor pela missão e o afeto pelo país que leva a bandeira verde e amarela. Ela esteve presente no 1º Congresso Americano da Infância e Adolescência Missionária (IAM), que aconteceu em Aparecida (SP), entre os dias 23 e 25 de maio, e partilhou seu testemunho missionário durante o encontro.

Desde os 13 anos, quando ingressou em um grupo de Infância e Adolescência Missionária, Aline Beatriz passou a entender que seu serviço estava além de uma vida egoísta. Porém, sua adolescência não foi diferente da vivida pela maioria das pessoas com sua idade, e ela não tinha muito interesse em participar da Igreja. “A primeira vez que eu participei de um encontro da IAM, foi por insistência dos meus pais”, ressalta ao sorrir.

No entanto, ela diz que ninguém precisou convidá-la para o segundo encontro. “A segunda, ninguém precisou me mandar. Foi a partir de então que comecei a conhecer mais no que eu acreditava: Deus que se mostra pai, amigo, amor e pastor. E uma coisa é lógica, não podemos gostar do que não conhecemos”.

Sempre espontânea, Aline não esconde que quando criança tachava a Igreja como “chata”. “Eu comecei a questionar o porquê eu seguia a Igreja. Muitas vezes participava e não sabia o que era, e esse é o motivo de achar chata. Graças à insistência dos meus familiares, hoje não me vejo fora dessa Igreja. E quando conheci realmente, ela passou a ser lar e caminho”.

Aprendendo em casa
A animação missionária a partir da vivência de discípulo foi herança familiar. De sobrenome, que mescla etnia indígena e origem espanhola, a família Peres Rodrigues Zuniga é do interior do estado de Michoacan, cidade chamada Ixtlan de los Hervores, no México. Como sinal dessa miscigenação e do respeito à tradição católica herdada, a jovem lembra que a imagem que se encontra no altar da Província, que tem cerca de 12 mil habitantes, também é sinal da catolicidade daquele povo.

É uma imagem de madeira que os espanhóis trouxeram. O missionário Vasco de Quiroga ensinou os índios a esculpirem. A que está na minha capela materna é resultado dessa fé indígena com a missão dos espanhóis. Meu bisavó é daquela comunidade e sua fé  deu origem a peregrinação de São Francisco, que permanece ainda hoje. Sou fruto dessa terra”, declarou.

Mesmo longe de seu país, a missionária se mostra convicta de suas raízes e também da importância da vivência familiar como primeira escola na fé. “Depois dos meus bisavós e avós, não foi diferente com meus familiares. Minha mãe e meu pai sempre levavam a família para a missa. Até meu pai, que só vai à missa e não participa de nenhuma pastoral, sempre nos entusiasmou muito a participar”. Pela Igreja doméstica, a participação na vida da comunidade fez parte da vida de Aline, que passou a compreender a Igreja como “casa, lar e caminho para o discipulado”.

Igreja jovem e dinâmica
Contra a evangelização “empoeirada” e não atraente, a jovem diz encontrar na IAM a chave principal para uma Igreja dinâmica e viva. “A Obra da Santa Infância é chave mestra para a evangelização como processo. Quando nos achamos evangelizados, temos uma fé um pouco empoeirada, guardada. A criança tem a capacidade de tirar o pó da Igreja”, comenta Aline. “Ao ingressarmos na IAM é como se encontrássemos um presente maravilhoso que estava engavetado. Fico a imaginar o que ela fez por mim no último ano e o que já fez para o mundo em 171 anos de existência”.

O amor pelo Brasil
Aline alimentou o amor pelo Brasil desde a sua infância. Seu português já abrange até mesmo expressões tipicamente nordestinas. “Ainda quando pequena eu já requebrava ao som de ‘tico-tico no fubá’. Quando cresci, minha leitura preferida era Jorge Amado”. Todas suas declarações de amor por essa pátria ajudaram a compor a jovem que hoje se diz enraizada no Rio Grande do Norte.

A vinda para o Brasil começou a ser sonhada em 2007, quando estava com 14 anos. Ela participava do Congresso Nacional da IAM do México, e ouviu o testemunho de um padre que esteve em missão no Brasil. “Depois de escutar o testemunho do padre mexicano, sua experiência na Amazônia e da necessidade de missionários naquela terra, eu me senti ainda mais motivada. Não sabia como, mas tinha certeza que Deus iria providenciar. Compreendi que só emprestamos o corpo e a voz, mas quem age e fala é Ele”.

Com a certeza de que Deus era insistente em seu chamado, Aline passou a trabalhar para que o desejo de missão se fizesse realidade. Consciente de que a educação dos valores cristãos começa desde as práticas de oração nos lares, a jovem mexicana mescla tradição e cultura como quem deseja atender a essa “insistência de Deus em chamar ao serviço”.

Mesmo sem receber o apoio dos pais, por ter apenas 14 anos, a então adolescente utilizou as redes sociais em favor da missão. “Nos mesmos dias do Congresso, vasculhei a internet até encontrar o contato das Pontifícias Obras Missionárias (POM) do Brasil. Escrevi para o padre Edson Assunção Santos Ribeiro, que era quem respondia pela IAM no Brasil. Ele logo me respondeu, começamos uma amizade e ele sempre me encaminhava materiais".


Sem respostas
Em 2010, Aline já não recebeu mais e-mails que alimentavam sua esperança de estar além-fronteiras. “Fiquei sabendo pelas redes sociais que ele havia falecido, então resolvi bater ainda mais forte na porta da missão em memória dele”. Com a consciência de que o trabalho missionário é um chamado de Deus, a insistente jovem procurou contato com um padre que começou a trabalhar com a Pontifícia Obra da Infância e Adolescência Missionária. Padre André Luiz Negreiros foi quem assinou os próximos e-mails que Aline recebeu. “Padre André deveria me achar uma menina louca, pela minha insistência. Mas me surpreendi com sua rápida resposta. E de uma coisa tenho certeza: não sou eu quem insistia com a missão, era a missão de Deus que insistia comigo”.

Depois de cinco anos em contato com membros das Pontifícias Obras Missionárias, Aline Zuniga chegou ao Brasil. Encaminhada à Natal, foi acolhida pela Igreja potiguar. Na nova cidade, Aline diz ter a capital do Rio Grande do Norte como sua casa. Logo quando chegou a missionária ingressou na faculdade e decidiu se formar para a missão. “Quero trabalhar na missão já que o serviço ao outro é minha vida”. Estudante de Turismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Aline optou por essa área na busca de contribuir com políticas públicas que preservem as culturas e os povos.

Como fruto da Infância e Adolescência Missionária, ela expressa sua gratidão às POM quando deposita na Obra uma significância singular em sua vida. “Se não fosse pela IAM eu não estaria na missão. Muito menos estaria no Brasil. Tudo foi por meio da instituição e das pessoas que com ela trabalham. Foi a partir do contato com o trabalho das POM que descobri que tem um aplicativo que Deus colocou em mim. E ele dizia que seria missionária no Brasil”.

Guilherme Cavalli
Secretário Nacional da Pontifícia Obra da
Propagação da Fé - Juventude Missionária (JM)

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